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A gente sempre sabe.

Toda vez que esse meu joelho dói uma dor chata e faz um barulho incômodo de porta de castelo mal assombrado, eu já sei. Eu sempre sei: vai chover. É porque, acreditem, em um momento da minha vida eu jogava volei pelo time do colégio. E de tanto achar que abafava acabei abafando. O joelho. 
E toda vez que meu pai está para chegar eu já sei. Eu sinto o cheiro de perfume que ele nem usa mais. Só que lembro muito daquele cheiro do Azarro que meu pai usava uma vida inteira. Ele colocava o perfume no dedo indicador e rapidamente passava o dedo na ida e na volta do bigode. Depois dava uma cafungada bem horrorosa e pronto, estava pronto e cheiroso. 
E toda vez que a Carol está mal, eu também sei. Não sei como mas eu sei. O casamento dela estava super planejado, vestido feito e dois meses antes acabou. Como o último suspiro de um corpo velho e cansado acabou. Suspirou e acabou. Naquela noite sonhei com ela chorando muito e acordei chorando muito. De manhã veio a notícia. E eu que já tinha comprado o vestido olho para ele e penso: suspiro. Acabou como tudo nessa vida. E quando a Bia está prestes a acordar eu sei. Eu sempre sei. Do nada eu acordo e penso: ela vai acordar. E menos de cinco minutos depois vem o resmungo. E quando o Matheus vai acordar idem. Eu sempre sei. E toda vez que meu pai não atende o celular depois de ver meu nome no bina eu já sei. Eu sempre sei. E quando ele vem se explicando então. Aí é que eu sei mais ainda seja lá o que isso signifique.

E toda vez que o Renato está com o farol azul apagado eu sei. Vem aí uma gripe daquelas. Eu sempre sei.
E toda vez que eu estou meio assim, mais mau humorada que o normal, querendo que o mundo se acabe mais do que o normal, mais manhosa que o normal, querendo matar alguém mais do que o normal, brigando mais do que o normal e dormindo ainda menos, o Renato sabe. Ele sempre sabe. É TPM.

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