21 de set de 2009

Merdinha de mulher.

Queria tanto tanto tanto que morreu de querer. Mas a morte era bem vinda porque ela estava cansada demais, enrugada demais e vesga demais para ser linda como em seus áureos tempos de cocota gostosa e burguesinha. A morte era bem vinda porque procurar cansa demais, anos de vida cansam mais ainda e falta de amor então, nem se fala. Ela morreu assim, de tanto querer e não conseguir. Esturricou. Morreu seca numa secura que ralava a garganta, nem saliva havia mais para tentar engolir tudo que a vida lhe espirrava na cara. A língua já tinha grudado no céu da boca. Como se tentasse a travessia num deserto cruel demais para aquela falta de água e aquele sol que arde e queima tudo, especialmente os miolos. Tentou tanto que esqueceu todo resto. Esqueceu de olhar para dentro. Esqueceu que ali, embaixo daquela carne cansada existiam tantas coisas para cuidar. Esqueceu de comer procurando. Esqueceu de matar a sede no deserto que tinha criado para si mesma na tentativa insana de quem sabe morrer mesmo. Morrer de falta de amor. A morte era o melhor descanso. A morte é o fim que desejam as vítimas do amor. O epílogo de todas as zilhares de urgências e de todos os passados que ela passou a vida tentado negar. Morreu de tentar e de não conseguir nunca porque já era tarde. Muito tarde para voltar atrás em todas as decisões erradas que ela colecionava e guardava na gaveta do armário do meio no quarto de empregada para ninguém descobrir que ela, no fundo no fundo, era uma merda de mulher que queria mesmo era morrer.  

1 Comentários:

João Olavo-Traços de um homem disse...

Humm as vezes nos sentimos assim mesmo..mas..não é legal claro..
as coisas mudam tão rapido..ela vai enxergar isso
Beijos

22 de setembro de 2009 15:01