29 de set de 2009

Um revoltado de cabeleireiros.

Toda vez que eu preciso ir, e só vou quando realmente preciso, vou munida de um livro, o Ipod do meu marido ou de um celular com bateria cheia para me distrair. Aliás, toda vez que vou é porque a coisa tá preta e não há mais argumentos nem amor que resistam à tudo que tem que ser feito. Aí eu vou como um animal rumo ao abate. Só que vou dirigindo meu próprio veículo. Entro já com a cara séria que é para ficar com fama de antipática e ninguém me perguntar se eu tenho convênio de saúde e se eu gosto da minha sogra ou se prefiro minha vizinha. Não, eu não tenho contra quem trabalha, acho uma profissão super legal mas minha alma precisa de muito mais do que ler uma Caras e morrer de inveja e de vontade de ir a Paris naquela porra daquele castelo perfeito que toda vez que a gente vê a gente quer como criança mimada que tem a primeira frustração mas não gosta de chorar para os coleguinhas ruins comentarem. Obrigada mas eu ando ocupada demais e a minha alma gosta mesmo é de Jobim e Vinícius descrevendo todas as coisas do mundo em canções e em histórias tão vivas quanto minha vontade de morrer de ódio das futilidades e dos creminhos que exterminam celulites como atiradores de elite e seus tiros certeiros. Então eu sento e imediatamente começo a me munir de subterfúgios para não me aprofundar no assunto da semana: Paola Oliveira comendo o ex marido da Thaís Fersoza que deve ser, por motivos óbvios, um sedutor de mão cheia. Enfim. Mas elas insistem. Folheiam e arregalam os olhos e comentam amaldiçoando. E babam quando olham para o Rodrigo Hilbert com dois filhos no colo sorrindo numa foto de image bank fodidamente perfeita. Dessas que quando a gente olha a gente acredita porque acreditar é sonhar e todo aquele mimimi que todo mundo aqui já conhece e já repetiu. Eu aumento o som mas elas falam cada vez mais alto brigando com o volume dos seis secadores ligados. Mas a união faz a força e elas são mais potentes que os pobres seis secadores. Então eu desisto do Ipod e tento fingir que estou falando no celular. Em vão. Fica parecendo desenho animado. Eu abrindo a boca sem som de tão alto que é a conversa fiada. E me impressiona como a que está na porta ouve a conversa da que está no fundo e conseguem se comunicar através de gritos e de sinais. Aí penso que o problema sou eu que sou muito profunda. Tão profunda que prefiro ficar uma Raimunda peluda e com cutículas caíndo pelos cantos dos dedos do que respirar superficialidades tão pequenininhas. Então coloco meu óculos bem intelectualmente e abro meu livro de 984 páginas. Elas nem notam. E agora a bola da vez (quer dizer a ex-bola da vez) é o Fausto Silva e seu peso quase pena depois da cirurgia  que fez no Einstein com o Dr Fulano das costas quentes e dos dedões peludos. Começa a minha inquietação. Meu pescoço coça. Peço para ela ser um pouco mais rápida porque tenho milhares de coisas para fazer. Mas o que tenho mesmo é urticária dessas barbaridades de creme anti envelhecimento, escova grega, maquiagem espanhola, sobrancelha coreana, unha francesa, pé chileno, sovaco indiano, virilha brasileira e se der bem cavada. O meu me mata mesmo é aquela invasão tãp peculiar, aquela intimidade tão instantânea e aqueles palpites tão imediatos e impensadamente covardes. E eu tenho medo de dormir inteligente e culta e acordar burra, viciada, insana e querendo ser alguém que não nasci sendo. É por isso que eu só vou quando a Edna fala colocando a frase naquele contexto que é só dela: “Ô patroa, vamos fazer essa mão que está demais, vou ligar no cabeleireiro e enquanto isso a senhora pega a chave do seu carro”.

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