7 de out de 2009

You choose

Somos produtos do meio em que vivemos. Fato. E apesar do meu meio ser um meio normal, quero dizer, com pessoas satisfatoriamente sãs, eu já era diferente desde criança. Diferente daquele bandinho de pseudo mini humanos fazendo as mesmas coisas nos recreios tão esperados, dividindo lanchinhos, bebendo água do bebedor nojento e jogando papel higiênico molhado no teto do banheiro e se achando o máximo por isso. Eu corria para o teatro para ficar espiando de longe a turma dos “grandes” ensaiando a peça nova da escola. Enquanto isso as mini humanas já treinadas por suas mães, ficavam cochichando enquanto escolhiam o melhor partido para dançar no bailinho.
Eu tinha minha turma de sala que era legal e eu adorava a Fernanda e a Carla. Mas um dia, depois de muitos anos de amizade e confidências, elas me chamaram para uma conversa séria. E na porta do banheiro e sem vasilina disseram: “A gente não quer mais andar com você porque você é estranha”. Meu mundo explodiu. Entrei no banheiro, chorei um tiquinho e voltei para aula. Estava sozinha no mundo escolar. Claro. Eu gostava de arte e elas gostavam de Menudo (não que eu não gostasse de Menudo, mas eu também já gostava de arte)! Eu sempre tirava dez nas redações porque escrevia muito sobre tudo desde sempre. E as mini humanas bem mais peitudas que eu escreviam bilhetes para suas amigas jurando amor e amizade eternos e gastavam cem vezes mais que eu suas canetinhas desenhando corações umas para as outras. Eu sonhava de olhos abertos e elas comiam sanduíche de queijo prato. Sempre em roda de mini humanas com o mesmo sapatinho de bico sei lá que porra. Teve uma época que ir num bailinho de escola era participar de desfile de carnaval: todo mundo da mesma ala com a mesma fantasia. Eu sempre sem roda mas com um livro na mão. Esse foi meu primeiro e amargo encontro com a crueldade das coisas da vida. Minhas queridas amigas me achavam estranha.

Pouco tempo depois, eu tinha um namoradinho. E uma tarde combinamos que íamos na quadra namorar um pouco. Naquela época namorar era ficar de mãos dadas lamentando a chegada da sexta-feira porque no fim de semana nunca nos víamos. Meu namoradinho disse que me amava e falou que eu era a coisa mais importante da vida dele. Eu flutuei durante a aula inteira com o coração pulsando na altura da garganta e me fazendo dar uns pulos na carteira de 3 em 3 minutos. Ele era popular, moreno, usava um aparelho charmoso nos dentes e usava o perfume do pai dele. Foi meu primeiro encontro com o amor. Eu esperei ele na quadra 20 minutos. Fui para porta e perguntei para o bedel. Ele já tinha ido embora e saiu da escola com a Laura que era super popular como ele. Tudo que eles agitavam dava certo e depois do primeiro encontro com o amor tive meu primeiro encontro com a dor. A dor do amor. Eu chorei alguns dias. A Laura usava sutiã e eu ainda não, só podia ser por isso. Namoraram o resto da nossa vida escolar e a Laura era minha amiga.
E numa excursão, teve um imbecil por honoris causa que abriu a porta do meu quarto e eu estava me secando, saindo do banho, numa posição estranha. Espalhou para escola inteira que eu era “despelada” e que meu peito parecia um caroço de azeitona em franca evolução. Eu quis voltar para casa mas desejei ainda mais ser forte e dizer na cara dele o quanto ele era idiota e o quanto o pai dele parecia uma coxinha recheada com catupiry.
Passado um ano e fiz uma nova amiga. Mais nova que eu mas super companheira. Fomos enraizadas uma na outra durante 7 longos anos. As duas sempre e tanto e toda vez. E um dia ela arrumou um namorado que não foi com a minha fuça torta e nunca mais olhou par mim. Foi meu primeiro encontro com a desilusão entre amigos que dói de verdade. Ainda teve uma vez em que um namorado, depois de dois anos de relação estável, bebeu umas a mais num gueri gueri na Oscar Freire e beijou ninguém menos que a Bel, uma super amiga na época. Coleciono todos esses momentos armazenados no meu buffer que é para não encontrar a verdadeira felicidade.

Assim, vomitando na cara da gente a realidade dura da vida e da dor, o mundo vai permitindo que a gente se divida entre bons e maus. Exatamente assim o mundo vai colocando na mesa as cartas, todas elas e as regras numa lista cumprida e detalhada. Só isso. Cartas e regras em mãos e legíveis, todo o resto é com a gente. You choose.

7 Comentários:

ligia disse...

os pedregulhos e paralelepipedos fizeram o caminho até aqui..e a seletividade faz a gente mais feliz. eu acredito nisso.
bjkas

7 de outubro de 2009 16:26
caroline disse...

o texto é ótimo mas nem sempre é fácil escolher! Mas faz parte da vida!
beijos
carol

7 de outubro de 2009 16:28
Sonia disse...

DEMAIS!

7 de outubro de 2009 17:25
Anônimo disse...

"A Vida é a Arte do Encontro embora haja tantos Desencontros nesta Vida", já dizia o meu Poeta Vinícius...
As crianças são crueis porque lidam com a falta de ética desde cedo..rsrs....A nós resta fazer as escolhas...ouvir, se calar, ou optar .E toda escolha implica em um perda, não é verdade ??
Abraço de alma minha linda.Bem apertado de tanta saudades..

8 de outubro de 2009 05:00
Carla Martins disse...

Arrasou. Parabéns!!!

8 de outubro de 2009 11:57
Dani disse...

Muito bacana, parabéns!
Me passa seu email, pois o divulgado no blog esta voltando.
Beijos,
Daniela

8 de outubro de 2009 16:59
joão disse...

Belíssimo texto, Tatiana!

8 de outubro de 2009 17:05