6 de abr de 2010

Há pessoas que preferem ter alguém.

Há pessoas que preferem ter alguém. Ponto no fim da frase.
Normalmente elas preferem ter alguém não importa em quais condições. O vazio é incurável, as paredes são ocas, os sonhos habitados por outros e novos desejos. Passam séculos optando pelas agruras quase que em um ritual de auto mutilação em nome de uns conceitos. O azedo do esgoto de estar por estar, já que não se sabe mais quem se é, já que não se lembra mais o fim daquela história que era tão boa de contar. Estar para mim é estado de conforto, cacete. Escolhem o cheiro do hálito que não diz nada há madrugadas eternas, o sabor azedo do paladar cansado da mesmice da outra língua que insiste em começar pelo lado esquerdo.
Há pessoas que preferem a rotina amarga dos dias sem sentido, das coisas sem qualquer tesão. A companhia insuportável de um ser que já não pulsa mais nada do que a dignidade de uma solidão bem curtida e pelada.

É assim porque toma banho que passa, empurra mais um pouco que passa. 35 anos, já já passa. É outra crise. É só mais uma. Agora é a dos sete anos.
Bando de humaninhos de merda que somos. 

O estado do conforto e o medo do confronto com a realidade que pode parecer feia paralisa, ajoelha e faz rezar. Faz um medo trêmulo enrolar a linha de raciocínio. E a língua. Viramos epiléticos diante da nossa falta de força para o incerto. E da nossa falta de curiosidade para novas vidas. 

Há pessoas que prezam por suas infelicidades contínuas e suas noites constantes de agonia solitária a dois. Pelo menos há alguém logo ali e perto o suficiente para socorrer em caso de um infarto. Para essas pessoas restam os pequenos instantes de que são feitas suas vidas, tão pequenos que mal podem ter meio. É começo e fim sem KY. Mesmo que o fim seja esse, de viver sobrevivendo só para não morrer em vida nem um tantinho.

Há pessoas que preferem ter alguém.
E há aquelas que preferem ser felizes.



2 Comentários:

Carla Martins disse...

Flor, publiquei a segunda parte da entrevistaaaaaa!!! Uhuuuuuu. passa lá e me fala o que você achou?

Beijos!

6 de abril de 2010 17:01
Lilian disse...

Ter alguém ou ser feliz, assim, como posições excludentes é meio assustador....
Mas acho que podemos inverter a proposição: acredito mesmo que relações de longo termo devem ser desejadas mais e para além daqueles com quem nos relacionamos. Porque gente mesmo, essas, com nome e sobrenome, é coisa muito difícil.... Os ideais, por outro lado.....
Ah, quero o outro texto!

7 de abril de 2010 08:11