O medo da coragem.

Eu sempre fui muito corajosa. Até nos meus piores momentos, nos mais frágeis, nos mais sem razão, nos mais mesquinhos, eu sempre fui corajosa. Eu nasci corajosa para vida. Para tudo que ela podia me doar como esmola e para tudo de presente por merecimento, que ela podia embalar e mandar entregar na porta da minha casa.

Uma vez eu me envolvi com um homem casado. Aos 17 anos, me apaixonei por ele e o cara era irrevogavelmente louco pela mulher que tinha em casa. Corneava, mas amava. Corneava para provar para si mesmo o tempo todo o quanto ele era fodido. Inclusive quando ele cantava Jorge Ben ele era fodido. Eu sabia que ia me machucar, eu tinha certeza. O mundo me alertou e me pediu calma. E eu mandei o mundo se foder, fui lá e vivi até me machucar. Até a certeza virar fato. Até chorar como uma gansa, por oito meses, de tanta falta. De tanto vazio.

Aos 22 aos de idade larguei tudo. Emprego, vida social intensa e patrocinada sem grandes esforços, a convivência com meus enormes amigos. Larguei tudo porque minha velhinha ficou doente. E eu não podia ser feliz sem ela para rir de mim e dançar comigo no meio da sala. Larguei tudo e fui entender de câncer mesmo não suportando qualquer corte. E fui ser cuidadora. Quase 4 bem longos anos. O mundo me alertou, me pediu flexibilidade. E eu mandei o mundo se foder e me entoquei naquele meu grande momento de bastante rara generosidade. Eu tinha prometido para ela, eu ia com ela até o fim das contas. E fui. Apaguei a luz e fechei a porta.

Eu vivi grandes e pequenos amores, todos eles tão intensos que, em todos os finais eu quase sempre morria de agonia. Por ter acreditado tanto e por ter apostado todas as fazendas que eu nunca tive neles. E nos cheiros deles. Tudo, em mil tentativas inteiras, de ter bem mais para contar.
E em todas as coisas incríveis que eu vivi com todos eles, eu botei toda a fé que sempre me fez duvidar de uma série de existências.
Eu nunca tive calma com a vida, eu nasci para me desculpar porque eu sempre preferi errar. Eu sempre adorei recomeçar para passar a vida me provando que eu pude e eu posso tudo. Mesmo que até hoje eu não acredite nisso. Mesmo que algumas pessoas tentem me colocar para baixo. E mesmo que eu finja que, às vezes, elas conseguem.  

Eu sempre fui muito corajosa para viver.
Mesmo que no escuro do quarto, eu passasse grande parte do tempo chorando de medo da minha coragem de viver.

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Singular.

A gente nasceu para o plural e parece que só sabemos transitar pela vida se somos mais que um. Sozinhos parecemos sem ar, sem luz, sem saúde, a alma fica profundamente abatida e o corpo tenta se libertar da dor da singularidade dormindo.
Para as mais encardidas a solteirice é sinal de indignidade. Para as bem resolvidas é sinal de que só tem bosta dando sopa por aí. Tirando aquele carinha daquela festa. Que depois de bolinar ela inteira, disse que era gay mas que estava com tesão nela. Fazer o que? Ele não era bosta até contar a verdade.

A gente nasceu para ser junto, para ser dois e depois três, quatro, cinco. Haja dinheiro. E anca para abrir e pele para esticar.
Para os mais descolados a solteirice é sinal de pegação geral, de virilidade. Por que virilidade passou a ser só ficar ou não de pau duro, ter o ombro largo e o bíceps definido de um jeito que define o estar de qualquer mulher.

A gente nasceu para dividir, para dialogar, para ter alguém para pinico e para cobertor. Para aprender que a intimidade é quase um sopro de vento bom no verão insuportável e que a dois é coerente acender velas.
A gente nasceu para aprender a confiar no amor mesmo que o amor, nem sempre, se mostre um camarada confiável. Nem confiante.
A gente nasceu para fazer cenas de amor, de ciúmes, de cumplicidade, de impaciência, de inquietação, de paixão eterna. Só que a gente só faz cena se tem platéia. E é possível fazer espetáculo para um único pagante sem problemas. Nem traumas.  Desde que ele entenda a mensagem.

A gente nasceu para isso mesmo. Para achar que só dá para ser inteiro se somos dois.
Mas há momentos em que ser singular é a única forma de encontrar o recomeço.

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Há pessoas que preferem ter alguém.

Há pessoas que preferem ter alguém. Ponto no fim da frase.
Normalmente elas preferem ter alguém não importa em quais condições. O vazio é incurável, as paredes são ocas, os sonhos habitados por outros e novos desejos. Passam séculos optando pelas agruras quase que em um ritual de auto mutilação em nome de uns conceitos. O azedo do esgoto de estar por estar, já que não se sabe mais quem se é, já que não se lembra mais o fim daquela história que era tão boa de contar. Estar para mim é estado de conforto, cacete. Escolhem o cheiro do hálito que não diz nada há madrugadas eternas, o sabor azedo do paladar cansado da mesmice da outra língua que insiste em começar pelo lado esquerdo.
Há pessoas que preferem a rotina amarga dos dias sem sentido, das coisas sem qualquer tesão. A companhia insuportável de um ser que já não pulsa mais nada do que a dignidade de uma solidão bem curtida e pelada.

É assim porque toma banho que passa, empurra mais um pouco que passa. 35 anos, já já passa. É outra crise. É só mais uma. Agora é a dos sete anos.
Bando de humaninhos de merda que somos. 

O estado do conforto e o medo do confronto com a realidade que pode parecer feia paralisa, ajoelha e faz rezar. Faz um medo trêmulo enrolar a linha de raciocínio. E a língua. Viramos epiléticos diante da nossa falta de força para o incerto. E da nossa falta de curiosidade para novas vidas. 

Há pessoas que prezam por suas infelicidades contínuas e suas noites constantes de agonia solitária a dois. Pelo menos há alguém logo ali e perto o suficiente para socorrer em caso de um infarto. Para essas pessoas restam os pequenos instantes de que são feitas suas vidas, tão pequenos que mal podem ter meio. É começo e fim sem KY. Mesmo que o fim seja esse, de viver sobrevivendo só para não morrer em vida nem um tantinho.

Há pessoas que preferem ter alguém.
E há aquelas que preferem ser felizes.



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Sei lá o que é isso.

Sei lá o que é esse negócio de sentir tanta falta até das coisas que continuam intactas e inexploradas. Sei lá o que é isso, mas de repente sou tomada por uma invasão que vem de fora do meu corpo e que me faz querer sair fazendo um monte de cagadas por aí. Como seu não houvesse consequência. Como se nunca, em tempo algum, houvesse nada além de grandes cagadas com cheiros de bons momentos que eu nunca deixei passar.
É quando eu sempre paro, inclusive de respirar, me olho no espelho e encontro ali uma amiga que o tempo afastou de mim. Uma amiga com o papo desenhado tipo de galinha. Uma amiga com umas rugas suaves mas não menos preocupadas. Não sei mais quem eu sou e esqueci nossa missão impossível nessa minha medíocre passagem pela Terra. Volto a respirar, quase sufocada, para a realidade que diz que é o fim. O da picada. O da nossa vida. O fim do nosso plural. O fim dos dias querendo te esganar e o fim das tardes sempre enfestadas por você, sua mochila e seu Ipod.
Me escondo em mim mesma, bem atrás da minha sombra e fecho os olhos bem forte. Meu avô sempre dizia para fechar os olhos e pensar numa coisa muito muito boa. E então o medo iria embora porque não há e nem nunca houve nada melhor do que o pensamento positivo.
  
A verdade é que sempre há consequencias, sempre há retaliações, sempre há situações que a gente gosta de chamar de castigo para o mundo morrer de pena da gente enquanto a gente fingi que é forte. Tudo para ser elogiada.
E então, mesmo com os impulsos do corpo eu me acorrento nisso que é a minha segurança: nós. Mesmo depois do fim dessa picada que coça sem dó e causa uma ferida com a ponta vermelha.
Eu tenho medo e sei que você também tem. A gente se esconde embaixo do nosso lençol, a gente dorme de conchinha, a gente toma banho com a mesma água que é para ver se nosso resto não vai embora, a gente se ameaça e no segundo seguinte volta atrás. Sei lá o que é isso de sentir tanta falta até do desconhecido mas é um buraco no meio do corpo que não enche nem com buchada de bode nem com amor de avô. Sei lá para que tanta coisa suspensa no ar, misturada com tudo que eu já aprendi. Sei lá para que tantas dúvidas se eu podia aprender de novo a decidir, a ir embora, se recomeçar é parte da vida. Sei lá o que é esse monte de insegurança fincada no nosso píer construído com barro e enfeitado com almofadas de motivos indianos. Para a gente deitar e filosofar sobre as coisas enquanto olha as estrelas no cenário perfeito.

Outra hora dessas li em algum lugar o seguinte: tudo que a gente entende a gente pode abandonar com facilidade. E eu não entendo mais a gente. E tomara que seja assim para sempre.

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