22 de fev de 2007

Um de saudade.

"Quando você passa três, quatro dias desaparecida...." é a primeira frase de uma música que gosto bastante. E o trecho me lembrou de um tempo nem tão distante assim. Quando eu, de repente, resolvia passar 3 ou 4 dias desparecida. Me lembrei da sensação exata de desaparecer em busca de algo. Sabe-se lá se de um amor, de alguém, de outro mundo, de qualquer fundo. Eu ia louca e desvairada atrás de novidades. De novos sabores, de novas dores. De confusões desconhecidas, de lugares com outros cheiros. Eu ia atrás de outro amor, de um tesão que mexesse com meu corpo até morrer de sei lá o que. Eu queria tudo que não fosse o trivial. Eu sempre detestei o trivial. O trivial sempre me irritou demais. Trivial era o casamento que assisti meus progenitores protagonizarem durante 20 anos em nome de qualquer merda dessas que a gente insisti em chamar de comodidade para não dizer que é cagaço.

Eu desaparecia querendo encontrar novos rostos, novos sons, novas cores. Porque não? Eu tinha 20 anos e minhas preocupações se resumiam a que roupa ir na festa da Janaína ou se ia pro sítio da Camila ou pro da Ju no interior de São Paulo. Eu trabalhava mas ainda não levava a vida tão a sério... (e acho que não levo até hoje). Eu tinha uma grana mas era pra baladinha, pro sorvete, pro apartamento que eu alugaria dali poucos meses.

Eu saia por aí, com uma mochila nos ombros numa sede desesperada de viver coisas. Parecia até que ia morrer. Eu era de uma intensidade incômoda. Era uma insônia desgraçada que derretia meus miolos de tanta energia acumulada. Eu queria uma turma nova, uma boate nova, eu queria não conhecer a bilheteira do cinema que frequento há 20 anos. Eu queria uma porra de um cinema novo. Eu queria ser uma anônima que foge maluca dos erros que cometeu e dos acertos que nunca admitiu. Eu queria dar pro primeiro que aparecesse retardado na minha frente propondo simplesmente sexo com um olhar sacana demais, sem encanar se o porteiro do prédio vai comendar com a Dona Gertrudes que vai dizer, em segredo, pra Dona Sofia que vai espalhar pro resto da vizinhança. São Paulo às vezes me parecia uma varzea menor que meu cérebro de titica.

Eu lembrei exatamente do que me movia nessa busca incessante. Uma aflição interminável. Uma angústia que apertava meu coração de melão até esmagar. Eu só sobrevivia a isso porque ainda não era minha hora e ninguém morre de véspera. Eu sempre fui um pouco exagerada, já comentei? Eu me sentia grande demais pras ruas, pro bairro, pros arredores, quiça pela cidade. Sempre fui um pouco metida a besta também. E assim passei a vida justificando minhas pequenas atitudes. Meus piores momentos de mediocridade, meus mais feios minutos de maus sentimentos. E foi dessa mesma maneira que protagonizei meus melhores e maiores momentos de felicidade, de amor, de prazer, de vida. Quando dava tudo errado eu queria me jogar ponte abaixo e morrer sendo a estrela de um grand finale... !!! Mas quando dava tudo certo, eu queria que todo mundo explodisse de felicidade comigo, que todo mundo vivesse aquilo comigo e pudesse ser contagiado, de algum jeito, pelos bons sentimentos que pude viver. E assim foi sempre. Assim fiz a minha coleção de piores burradas. Assim construi as melhores histórias que tenho pra contar. Vivendo e deixando que a vida viesse e dormisse comigo na minha cama, tomasse minha coca-cola e fumasse meu cigarro.

As sensações agora são outras. Eu gosto de dormir menos ansiosa. Gosto de não sair que nem doida por aí. Adoro meu Universo Particular com meu marido. Sou feliz sem as expectativas que tinha. Curto não ter obrigação de sair com os amigos e não me sentir por fora das "últimas". Acho sensacional passar um dia inteiro na cozinha com o meu marido fazendo comida pra dois casais de amigos que sempre vêem.

Mas que de vez em quando dá uma saudade dos meus 20 anos... ah dá!!!!

1 Comentários:

Fernando disse...

Bom texto. Grande mas muito bom de ler.

Abs,
Fernando

23 de fevereiro de 2007 20:44