16 de set de 2009

16 anos atrás.

Hoje completamos 16 anos de porra nenhuma. Tá vai. Porra nenhuma é exagero, mas hoje faz 16 anos. E 16 anos é muito tempo. É uma vida que está começando com todos os vasos desabrochando, com todos os hormônios brigando entre si enquanto tentam se organizar, com tudo de bom e tudo de ruim que existe em estar em cima dessa linha onde não se é mais criança e nem tampouco adulto. 16 anos, bicho, é realmente muito tempo. 16 anos daquele dia em que você, parecendo um louco em surto caiu em cima de mim naquele shopping. Aliás, foi a primeira vez que entrei naquele shopping. Hoje acho que só entrei lá para você cair em cima de mim. Hoje tem 16 anos que você tomou aquele tombo e que todas as portas de todas as esperanças se abriram e minha vida adolescente confusa, chata e monótona, ficou legal e colorida porque você chegou pregando que estava tudo errado e que a vida podia me oferecer mais, muito mais. E eu, que aos 15 anos já queria mais da vida e dos destinos, achava tudo muito óbvio e sofria horrores numa busca frenética e desesperada por grandes emoções para meu pobre coração de sabão, resolvi rasgar minha pele num ato heróico e viver aquilo com tudo. Tudo aquilo que me fez a mais feliz adolescente do mundo e a mais infeliz mulher da humanidade. Coração de sabão é foda porque ele derrete quando o cara encosta a mão, saca? E se a mão tiver muito perto do coração então. 16 anos em que as janelas se escancararam e decidi transformar minha vida numa montanha russa emocional e sofrer e sorrir por longos, bem divertidos eu confesso, mas proporcionalmente doloridos 8 anos. Hoje tem 16 anos que eu comecei a enxergar as coisas da vida com olhos de 40 apesar de ter 15, que aprendi a não falar tanta criancice porque turma de 40 não suporta pirralhas de 15 e hoje tem 16 anos também que tive um encontro mágico: o meu encontro com o teatro. Sim, eu sou atriz. Na verdade eu nasci artista e por isso acho que sofro tanto. Porque artista que não sofre não cria, não procria e não faz porra nenhuma a não ser ler meia dúzia de poemas espanhóis, ouvir Chico e falar da época da ditadura com um tom meio esquerdista, cretino e ultrapassado. O teatro me liberta incrivelmente de todas as coisas que sufocam, que abafam, desesperam e me deixam histérica. Hoje tem 16 anos que passei a enfrentar brigas, que comecei a contar muitas mentiras, que eu fingi sempre para não admitir nunca que você jamais me tiraria daquela vida medíocre demais para minha alma artista porque eu fui um brinquedo que tinha corda em suas mãos. Hoje tem 16 anos que eu comecei a ficar malandra, que aprendi todas as coisas erradas e que fui apresentada para um mundo muito distante do meu. O mundo da fama, do glamour, da televisão e das coisas todas que uma menina de 15 anos pode esperar, tranquilamente, uma Era e três meses para conhecer. Aconteceu tudo, aconteceu nada, pessoas vieram e foram. 16 anos é um ano a menos do que tem a Luciana, afilhada querida, que já é uma mulher com todos os contornos recheados de graça e delicadeza.

Uns dias atrás eu soube pelos jornais que você não anda bem. Quis dizer obrigada. De verdade obrigada. Eu sempre sobrevivi aos buracos emocionais em que me atirei porque aprendi a ser esperta, aprendi que homem não gosta de mulher que chora de mansinho só para impressionar e aprendi que o mundo engole os fracos e que mulheres para serem verdadeiras mulheres não precisam necessariamente se maquiar e ter uma botinha de bico fino. Mulher que é mulher mija em pé se precisar e pari dentro de um ônibus sem glamour nem convênio de saúde. Hoje faz 16 anos que muita coisa passou e outras tantas aconteceram. Casei com um homem por quem sou fascinada e que me ensinou como amar é diferente do que você me ensinou ou do que você não queria que eu aprendesse. Tenho filhos com ele, somos felizes e ainda nutro o sonho de viver numa casinha com três cachorros e umas duas mucamas para resolver as coisas e me trazer uma marguerita na piscininha de Ramos que eu ainda terei, no dia em que escrever uns textos babacas e idiotas vai dar uma boa grana. Hoje faz 16 anos que a gente mudou a minha história e que escolhi ter uma vida subversiva para chamar atenção porque você só me fez ainda mais egocêntrica, mais insuportável e mais metida a besta.
Não, eu não tenho saudade alguma, de nada. Mas sou grata. Muito grata.

4 Comentários:

MARCOS DE ANDRADE disse...

Por que será que Deus fez as pessoas semelhantes? Será que ele, em seu íntimo, é assim também? Bueno, tem ai umas coisinhas bem iguais, apesar de eu ser do sexo oposto. Mas a dor, essa de ter e de perder e depois encontrar algo legal e recomeçar de novo, bem melhor... essa é ainda a verdade absoluta da juventude. Bejão proce menina.

16 de setembro de 2009 11:13
Caroline disse...

Tá escrevendo cada vez melhor, incrível.

Beijos
carol

16 de setembro de 2009 11:44
Carla Martins disse...

Ai, conta aí, de quem / o que vc está falandoooo?????

Beijos!

16 de setembro de 2009 16:14
Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom

20 de novembro de 2009 13:32