4 de set de 2009

Ele já não vive mais sem ela.

Ele já não come e não dorme. Não lembra que tem o próprio corpo para cuidar, a própria vida para viver, tantas histórias para contar e recontar e revisar e reviver. Mas ele já não faz mais nada. Ele, às vezes, esquece inclusive de tomar banho e trocar a cueca. Ele já não sente mais falta do café tão habitual e obrigatório, não tem mais a vontade natural de comer comida japonesa no restaurante do Alemão e nem de ligar a TV e vibrar com o Ronaldo em sua fase futebolística inquestionável. Ele já nem conversa mais com a Neide, sua empregada de mil anos e meio.
Ele já não quer saber de nada. Só dela. Só dela desfazendo o rabo de cavalo. Só dela caminhando suave para o quarto logo depois da novela das 20:00, carregando com as duas mãos feito criança, um copo de leite de onde se vê sair fumaça de tão quentinho. Só dela ali, carregando o leitinho, vestida de camisolinha solta, de calçola grande, mas sempre muito charmosa e rebolativa. Ele não lembra mais nem de telefonar para os imortais amigos da época da escola e os do pôquer. Ele só consegue pensar nela, todas as noites com os mesmos movimentos e sentimentos e sua solidão tão aparente e pública. Mas sempre tão feliz.
Só nela e na TV de plasma que tem no quarto dela e que ela, ainda segurando o copo de leitinho, liga todas as noites esticando o braço esquerdo do mesmo jeito como se o controle remoto precisasse ir mais perto da tela para funcionar. Só nela com aquele jeito blasé de colocar o óculos e de olhar para a televisão de plasma forçando um pouco os olhos. Só nela e na falta de marcas na pele lisa, no cabelo repicado e bagunçado e na pinta que ela tem do lado direito do rosto e que deixa o tudo dela ainda mais misterioso e mais delicioso.
Ele já nem mais toma água porque não sente sede. Só a sede dela e nela. E naquele joelho tão redondo e magrela dela e na pulseira que ela tira toda noite antes de dormir para não parecer desconfortável. Só nela e na simplicidade dela afofando o travesseiro e dobrando o bicho na metade que é para ficar mais alto e fofo. Ele já não come tomate há 3 dias e tomate sempre foi salada de todo dia porque ele é viciado em licopeno que previne o câncer. E nela. Ele já não assisti todos os filmes de Felini com antes. Ele não olha mais para nada. A não ser para ela. E assisti entorpecido a mordida delicada dela naquela maçã sempre tão vermelhinha. Toda noite. Leitinho e maçã. TV de plasma. Rabo de cavalo. Perfume de vidrinho azul turquesa.

Ele já não consegue viver sem ela. Nem sem o binóculo que ganhou do neto.

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