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Outro do amor.

Eu estou aqui, super bem casada, com minha vidinha cansada mas ótima e normalmente mau humorada que é para não perder o charme. Mas tenho ouvido muitas amigas contando dos moços por aí. E elas são unânimes, meninos! Falta romantismo, falta compromisso e falta aderência. Isso mesmo, A-D-E-R-Ê-N-C-I-A. Porque todas elas choram as pitangas aqui no meu ombro ultra amigo e o discurso é o mesmo para mulheres de diferentes tribos: é tudo só sexo. Se deixar, sem beijo na boca que é para não ter envolvimento emocional. A reclamação é igual: não se abre mais a porta do carro, não se reinventa mais a paixão e nem o romantismo, não se manda mais flores que dirá cartões e é tudo na velocidade da Internet. Rapidinho. A saída é rapidinha porque tem reunião. A transada é rapidinha porque tem jogo. A conversa é rapidinha porque talvez falte vocabulário. É tudo frouxo, tudo sem energia, tudo sem encanto, tudo sem aquela magia, meu povo, aquela que é necessária para a gente ver borboletas onde só há poluição. As coisas andam sem sentido porque é muita procura e pouca oferta. Falta até beijo na boca molhado. Li outro dia Carpinejar dizer que as pessoas não se beijam mais, empurram com a língua. Falta carinho de mão na mão, de dedinho enroscando com dedinho, de ele perceber que ela fez luzes californianas nas madeixas, de ela reparar que o bigode dele está mais ralo e aparadinho e assim por diante. Sem falarmos das preliminares de tudo porque amor precisa de preliminar. Jantar precisa de preliminar. Uma boa música não dispensa um diálogo gostoso preliminar. Cinema precisa de preliminar com pipoca. Falta tempo para namorar, sobra tempo para ganhar dinheiro e pensar só no futuro esquecendo que há algo muito mais valioso: o presente. As relações atuais, tão frágeis, precisam eternamente ser inventadas, recriadas e amadas. Mais do que sempre e do que nunca. O amor não é dado a superficialidades. O amor não é dado a jogos onde alguém sempre perde. O amor sim é dado a clichês, meninos. E mais clichê que isso não há: só vale se for verdadeiro.

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Numa tarde de segunda-feira.

Naquela tarde de segunda feira ela começou a trabalhar. E logo que chegou bateu o olho nele. E aquele olho de bandido arrepiou todinha ela que usava uma calça branca e um salto alto compondo com o decote da blusinha solta. Ah! o alto dos 20 e poucos anos! Tudo em dia, tudo durinho, lisinho, sem crateras e sem os sinais quase vitais da tão falada experiência. Peitinho, bundinha e disposição dos 20 e poucos anos. E aquele cabelo semi grisalho deixou-a transtornada. E todo aquele jeito de intelectual, e toda sua pose de descolado-bem humorado-cínico de quem faz terapia com uma psicóloga gostosa e sabida. Ela gelou. E tremeu também. E sentiu como se tivesse voltado para casa. Aquele corpo dele parecia a casa onde ela habitou por 3 ou 4 encarnações de tão conhecida. Barriguinha linda, pêlos na medida certa e aquela dose de macho besta e pornógrafo. E o jeito que ele falava, e os gestos da mão esquerda, (aliás que mão esquerda) e o jeito que ele usava o mouse do Mac, e as músicas detestáveis que ele ouvia enquanto trabalhava. E o jeito com que virava aquele pescoço grande para admirar a bunda dela dentro daquela calça branca e de qualquer outra calça. E o universo congelou para ela sentir aquele cheiro tão delicioso e para ver mais de perto que o jeans estava rasgado no joelho. E que joelho.

E ali começou, naquela tarde de sol, quando ela passou aquela porta e cruzou aqueles olhos. E ele adorando a paralisia dela cada vez que se esbarravam. E alimentando aquela vontade louca que ela tinha de enviar tudo pro inferno por email e se perder ali mesmo, naquela antiga nova casa. E naquela antiga nova relação. O jeito que ele cortava suas peças, o jeito que ele brigava, o jeito que ele tinha de fingir que tudo era nada e que nada era menos ainda. E todo aquele ar de gostoso que sabe que é gostoso, de low profile metido a besta e toda aquela petulância e toda sua curiosidade para ler e sacar e entender como se a conhecesse há 9 encarnações.

Ela passou meses se arrumando para o descarado que xavecava todo mundo, que alimentava todas as mulheres com suas frases de efeito idiotas. Ela tinha ódio de como ele era sexy até tirando meleca do nariz. Um nariz lindo e contornado. E falava de sacanagem com uma naturalidade charmosa e escrevia deliciosas sugestões de indecências discretas e intermináveis. E ela gostava tanto daquilo que perdia o rumo e o sono. E sonhava com os cabelos e com o Mac e com o jeito tão lindo quando ele estava compenetrado desenhando suas coisas ou comendo o rabo de meia agência porque as coisas tinham sempre que ser perfeitas. Perfeitas como aquele peito dele. Que ela nunca tinha visto, nem tocado nem cheirado. Mas que ela sabia que era perfeito. E perfeito também como aquele beijo dele e a pegada dele. A pegada que ela nunca sentiu, que ela nunca arrepiou.

Uma relação que nunca houve, que ficou nas conversas de corredor e nas caronas acidentais. Tudo não passou de um monte de desculpas que eles arrumaram para nunca se concretizar.

Era tudo tão perfeito no papel que na teoria podia frustrar. Os dois viveram meses tapando buracos escuros e fundos só por medo. E todo jeito descolado e o caralho era na verdade uma tentativa de esconder o óbvio. Dois medrosos o suficiente para fugir do que naquela hora era o melhor a se fazer: deitar numa cama e ficar ali, olhando pro teto embalados pelo silêncio bom, até que tudo acabasse e escorresse pelo ralo junto com toda espuma daquela banheira tão perfeita que eles também nunca usaram.

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Buscando razões.

Eu vivo buscando razões tanto quanto busco a tal da felicidade plena dos comerciais da TIM com atores sempre de braços abertos falando da tal liberdade de não sei que porra.
Eu busco razão pro amor, pra vida, pros sentidos, pros mau entendidos, para os meus grandes e piores momentos. Eu busco razão para estar aqui, para ter filhos, para gostar de chuchu e abobrinha, para devorar barras e barras de chocolates e não ter piriri e para chorar toda vez que vejo o especial do Roberto Carlos no dia 25 de dezembro. Eu busco razão para essa verdade toda que me consome em pequenas porções deixando meus miolos moles e me impedindo de admitir o quanto às vezes eu sou uma idiota insegura que não se assume. Porque eu não me lembro onde mas comprei a verdade. Toda ela. E todas as suas razões. Eu estou há 32 anos buscando uma razão para amar tanto, para sentir tanto, para traumatizar tanto, para intensificar tudo. Tanto. O tempo inteiro. Porque eu nunca entendi como uma pessoa pode se apaixonar e amar tanto assim. Um amor que vem do orifício mais escondido e apertado do meu corpo. E é amor mesmo. E é tanto amor que chega a doer as juntas, de dar reumatismo precoce. Eu quero só uma razão para não conseguir mudar coisas, para não ter controle sobre tudo que me amedronta. E eu tenho vontade de me esconder embaixo da minha cama e ficar lá de olhos fechados e ouvidos tapados cantando, até meu pai chegar e me resgatar como um herói de filme americano babaca. Eu queria apenas uma razão para ser tão dona da verdade a ponto de nem sequer questionar comigo mesma. Eu queria mesmo era uma boa razão para ser um vulcão de emoções latentes que me deixam mole e preguiçosa como num domingo de chuva cheirosa e gelada. Eu queria entender porque tantas coisas se dão e eu não posso fazer nada. Eu quero uma razão para minha incapacidade com as palavras, para minha má formação com a verdade dos outros. Eu passo grande parte do meu tempo buscando explicações e razões e motivos. Eu acordo pensando no motivo de tudo isso e mais um pouco. E durmo perguntando para ninguém a razão de amar tão intensamente que chega a secar a garganta como aos 15 anos, logo depois do primeiro ciclo menstrual.

E a razão nunca vem. Por mais que eu pense, escreva, chore e ame intensamente. Por mais que eu teorize, a razão nunca chega. Porque, Tatiana, há coisas que não precisam de razão alguma. Só por isso.

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To the hell.

Ele me mandou pro inferno. E quer saber? Ando com muita vontade de ir. Mas uma vontade visceral, daquelas sobre as quais a gente não tem (e nem quer ter) o mínimo controle. Porque pensando bem lá no inferno a coisa deve ser quente. Sem trocadilhos mas deve mesmo. Milhares de almas (?) perdidas e mau humoradas como eu. Mas todo mundo sempre cheio de boas intenções. Será que todo mundo por lá é mau humorado como eu e chato como eu?

Mil drinks super coloridos mas com a base sempre em vermelho. Centenas de festas de almas penadas buscando pelos seus devidos perdões. Eu tô realmente a fim de ir mas com passagem só de ida que é para o mundo dobrar a língua. E para ver se eu faço falta.
Um bando de almas livres? Almas livres vão para o céu. Mas eu ando com vontade de ir. Colocar duas mudas de roupas numa mochila, bater a porta e vazar. Porque eu tô cansada, porque eu tô com sono e porque eu sou mau humorada. E porque no fundo no fundo, eu fico aqui suplicando por um pouco de atenção e um pouco de diálogo. E porque também, mais no fundo ainda eu tô fodida de magoada. E nem é porque ele me mandou pro inferno e me disse prá parar de encher o saco precioso dele. É porque ele sempre fala pouco. Mas quando fala é com pegada. E eu pedindo só um pouco de diálogo.

No inferno as pessoas almas dialogam, será? Hoje eu acordei numa boa. Querendo conversar sei lá. Será que é para isso que a gente tem amigos? E quais serão os trabalhos lá no inferno? Eu só não sei passar roupa. Mas de vez em quando me dá uma vontaaaade de ir. De sair de caverna em caverna solta, buscando, querendo, esgotando as possibilidades de ser feliz como se estivesse presa num labirinto emocional. Será que no inferno tem saída? Tipo ficou bonzinho sobre de elevador pro céu com direito a coro de recepção e milhares de harpas reluzentes agradecendo ao Senhor a salvação de outra alma quase perdida. Eu tô com muito sono. E tô magoada. Nem o café quentinho melhorou. Nem saber que ele já pensou no que disse me faz querer deixar de ir pro tal do inferno que ele me mandou. Eu detesto querer dialogar (gosto dessa palavra) e receber um sim de volta. Porque sim para mim não é nada. Não é conversa. Um sim é somente um sim. É quase um ponto final para quem não quer perder tempo tentando aparar umas arestas das quais o durepox insisti em descolar.

Apesar que se as pessoas almas forem muito mais mau humoradas do que eu, duvido que conversem. Porque o cara mau humorado não quer que você nem olhe para ele. Que dirá fale com ele. E eu também sou muito branca, sabe. E a temperatura lá no inferno deve ser alta para cacete. E não deve existir uma sumirê para eu comprar um protetor bem melado e manter minha corzinha de mofo que eu tanto adoro. E também eu fico pensando que só festa enche o saco. Será que enche tanto o saco quanto eu encho o dele?

Hoje eu tive vontade de procurar o mapa do inferno e dar um rolê por lá. Mas não sei como chegar e ainda não tenho um GPS. Melhor ficar por aqui mesmo. Corre o risco de eu perder o caminho de volta para casa.

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Ela só quer só pensa em namorar.

Ela é linda. Rica, elegante e bom papo. Ele tem 42. Tipo sarado descolado mas nem tanto assim.
Ela quer casar e ter filhos. Ele já tem um do primeiro casamento, bem antes de ele se apaixonar por ela. Mas dessas coisas do acaso eles se conheceram num restaurante com centenas de pessoas como testemunhas nem tão oculares assim. E o romance engatou lindo e solto. Ele sempre disponível mas nem tanto quanto ela gostaria. E ela sempre tão disponível prá ele que dava até dó. Ela toda pronta para viver uma relação madura e ele tão disposto a viver uma relação carnal. Mas isso ninguém pode negar. Como a cama é boa. Puro tesão, sacanagens mil.

E ela toda vem vem vem e ele todo vai vai vai.
Ela planejando o tamanho da varanda que vai querer para suas orquídeas e ele planejando em qual motel eles vão esta noite. É que ela sempre quer tanto que fica cega. Um tantão assim, manhê. E assim a vida a dois segue. Ele sempre de pau duro e ela sempre de coração aberto e despencando de amor. Para dar e receber.

E aí um dia os planos se chocam e tudo vira cerveja choca. Aquela que não desce, que nem com sede dá pra encarar porque cerveja choca, meu bem, é demais para mim. Porque ela não ouviu, mas eu avisei, e avisei muitas vezes. É para isso que servem as amigas, para avisar e para aguentar depois. Bem dolor. E ela chora chora chora. Todo domingo ela chora. Nas terças ela frequenta a academia. E nas segundas ela se recupera do choro do domingo. E quarta é rodízio do carro dela então ela mal sai de casa. Quintas e sextas ela chora às vezes, dependendo do que está passando na TV. E ele segue com a vida sexual dele ativa. Porque a agenda de contatos é grande e a mulherada reclama mas tá fácil demais. É só dizer meia dúzia de coisas desconexas e sem sentido que elas acham eles alternativos. E os alternativos estão na moda. Os alternativos que têm dinheiro, claro.

E eu sigo dizendo que enquanto ela quiser tanto o dedo podre é que vai escolher. Escolher não. Aceitar. E ela segue fingindo que não me ouve porque afinal, com 30 anos ela achou que estaria na casa de praia esperando o marido rico e cuidando das babás dos filhos. E com a vida ganha prá pelo menos sete gerações. Mas não foi exatamente o que aconteceu. E o pavor de solidão ensurdece. A possibilidade de ter que tricotar sozinha na terceira idade deleta todo seu repertório amoroso. Emburrece.

E ela como centenas de outras buscam tanto que não acham. Porque o mais legal do amor é que ele aconteça. E enquanto ele bate todas as punhetas do mundo ela se vira com um rivotril aqui, outro prozac ali para aguentar o tranco de outro e outro e outro fora. Melhor agora do que mais tarde. Amor não se pede, meu bem. Amor se ama. Amor tem que ir e vir, meu amor. Porque amar sozinho é o cacete. Mole.

Qualquer amor solitário é muito pior do que a solidão natural. Até porque, meu bem, a solidão vem carregada de uma dignidade absoluta. Pode acreditar.

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Eu diria...

Se eu pudesse te dizer algo hoje seria: não passa. Não passa nunca essa saudade. Eu penso muito em você. Muito mesmo. Quando vejo jogo do Corinthians, quando assisto a uma cena do Fagundes, quando olho pro Matheus e pra Bia. E quando passo um cafézinho fresco e tomo um golinho com um pedaço de bolo. E também quando como banana assada e quando vejo alguém promovendo a Herbalife. Eu penso muito em você.

Muitas coisas mudaram. Mas nem tanto assim. Tô aqui com dois filhos fresquinhos, um marido ótimo e parceiro prá tudo e meus amigos de sempre. Mas queria te dizer que não passa. Que eu lembro muito de você me colocando sentada atrás de livros e mais livros, que eu não esqueço de você grelhando bife e fazendo aquela mousse de chocolate que eu nunca mais comi em lugar nenhum. Aquela sim era a melhor do mundo. E também me lembro sempre de você sentada na sua poltrona verde, de óculos e com seu cigarrinho entre os dedos assistindo todas as novelas do mundo. Mesmo que na verdade, você estivesse dormindo sentada. E de como você era generosa com seus amigos e de como você sabia ser amiga como poucos e sobre toda sua sabedoria, sua experiência e sua paciência.

Eu cresci. Virei gente grande. Aliás, maior do que gostaria de ter ficado, ainda mais depois de dois filhos. Tenho minha casa, aprendi a cozinhar e casei. E aprendi a viver numa vibe diferente da que eu vivia antes. Aprendi sim. Aprendi a ser menos. Menos ansiosa, menos over. Só não perdi o hábito de fazer drama. Aprendi que viver contra o tempo só dificulta as coisas e que a paciência é sim a maior virtude do homem ainda que eu não tenha nenhuma. Mas não passa. E não passa porque você é muito muito presente. E eu acho incrível a minha capacidade de lembrar das coisas mais legais e de ter esquecido absolutamente as coisas chatas que aconteceram. Eu me lembro de tirar você prá dançar no meio da sala sem que nenhuma música nos embalasse, de comprar massa pronta de bolinho de chuva e dizer que eu que tinha feito só prá você ter orgulho do meu bolinho de chuva, de comprar suas latinhas de cerveja e de como você me amava tão intensamente. E de como você ria comigo e de mim. E de como você me achava criançona mesmo sabendo, bem lá no fundo, que eu já era uma mulher feita. E segura. E você me encarava com uma emoção tão infantil que chegava a emocionar. É por isso que não passa nunca. Eu tenho filhos, aprendi como é o tão famoso e falado e discutido amor de mãe. Você me amava filha e não neta. E amor de mãe é um troço que realmente não se explica.

A minha garganta sempre entorta na mesma hora em que os olhos lacrimejam. Não passa não. Mas tudo bem, a vida segue e segue muito bem, obrigada. Mas mesmo assim ainda dá uma dorzinha incômoda. Por que passar não passa nunca.

E quer saber? Eu acho bom que não passe que é prá eu não esquecer nunca de como éramos juntas.

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Carta ao cansaço.

Você conseguiu. Cansei. Cansei das palavras. Cansei das coisas todas. Eu cansei de ter que fingir alguém que não sou só por que você não me aceita torta e nervosa. Eu tô com o saco bem cheio. Tão cheio que às vezes eu tenho vontade de emprestar o estômago prá você poder me encher mais e ter prá onde ir toda essa encheção. Cansei, meu bem. Cansei mesmo. E de verdade. Eu não tenho mais pâncreas prá suas ameaças, pro seu jeito dominador, pra sua calma e prá essa paciência sempre tão paciente e latente. Eu tô cheia. Tão cheia que dá vontade de me auto enfiar uma agulha e me furar que é prá ver se esvazio. Eu cansei de você me apontar, de me xingar de chata e ansiosa e de me pedir calma até quando eu não quero ter calma. Eu quero intensidades. Eu quero tons e volumes diferentes. Eu cansei do morno. Aliás morno sempre me remete à vômito.

Eu cansei do seu jeito de me mandar embora, de falar grosso quando está puto e cansei da sua mania de deixar a toalha molhada em cima da cama. Cansei do seu barulho escovando os dentes, cansei da bagunça no banheiro, cansei das suas roupas e de como você me ama. Cansei de não ser nada e de ser tudo. Cansei de catar as coisas e cansei de mudar prá ser melhor. O seu melhor. As pessoas cansam, sabia, meu bem? E eu me afoguei, chafurdei a cara na sua lama. De tanto que eu quis não cansar. Mas mesmo assim eu cansei. Esgotei, afundei, submergi, socooooooooorro!!!!

Cansei de não cansar, de querer muito. Até que cansei. Me dá azia e mal estar. Parece que eu vou morrer de tão cansada. Porque de repente eu era outra. E muitas. E quase todas. E se ser uma só já cansa, imagine ser muitas. Servil, companheira, sorridente, bem humorada, amante, mãe, cozinheira, trocadora de fraldas, lavadeira de roupas, mamadeira e afins. Ufa, cansa. Às vezes eu tenho vontade de me perguntar como eu demorei tanto prá chegar no auge desse cansaço que me dá falta de ar. E só não me pergunto porque não sei a resposta. Esse cansaço que seca a garganta, que dá tonteira e confusão mental. Eu estou tão cansada que nem sequer sei como estou sentada tentando terminar esse texto sem sucesso. É um misto de fadiga física com bode do mundo inteiro somado com sono, noites picadas, ansiedade e tensão. Cansa tudo isso junto.

Cansei de mim. De ser passional, de ser complascente, de ser de ser de ser. Eu cansei de ser. Quero apenas estar. Estou cansada. Estou puta com você.

E amanhã é outro dia.
Eu amo você. E isso ainda é maior do que todos os cansaços.

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Eu chorei até ficar afogada de você. Até sufocar e quase morrer num último suspiro que nunca pensei que viria. Mas veio e eu quase morri. Quase morri de raiva. Eu chorei até ficar 1 litro de água mais inchada. E até minhas pernas não suportarem mais o peso da minha cabeça fraca e do meu corpo pesado e duro. Até minha água toda incharcar meu travesseiro de plumas de ganso, meu lençol de 800 fios e meu cabelo de mega hair. Eu odeio você com toda a força do meu ego, com toda força das minhas entranhas, com toda força do meu corpo magoado e despedaçado. A minha vontade é socar tua cara até ela inchar e você dar 8 tapinhas no tatame. Porque você, seu filho da puta, veio com todas as promessas, com todas as idéias e com todos os dengos e agora, seu cretino, me diz que eu sou chata. Que toda mulher é chata e que a gente precisa muito de tudo. Eu estou até agora querendo entender, querendo deixar de sentir teu cheiro, querendo que você morra num esgoto coberto por ratos e água suja e nojenta. Porque chata, seu desgraçado é a sua mãe!

Eu te quero longe, eu te quero sozinho, mendigando um amor qualquer, numa esquina da Paulista com um chapéu de palha bem horroroso nas mãos, com a calça suja e a camiseta rasgada. Meso que seja aquela da GAP. Eu quero você longe e cada vez mais longe porque eu nunca mais vou chorar por você, seu animal.

Sinceramente, eu te desejo o pior do amor. O pior do ser humano, o pior que você fez comigo. Neste exato momento, enquanto cago esse texto, me livro de todas as agruras do meu coração de mulher e te engulo com uma coca-cola bem gelada. E com muito limão. Porque qualquer limão azedo é melhor que o gosto que provei com você. Esse gosto péssimo de amor mal resolvido, de amor frágil, de amor mentiroso. Nem adianta você se arrepender, você chorar, você vir com gérberas lindas e azuis porque eu não estou nem aí prá uma pessoa como você.

Eu vou sair por aí linda e em cima do salto em busca das minhas antigas buscas. Porque eu não vou derramar mais uma valiosa lágrima por você. Porque na verdade já estou curada, estou linda, qualquer roupa que eu vista me cai bem e eu quero mesmo que você se foda com toda essa sua gentileza canalha e seu charme manipulador.

Nada vai me fazer deixar de sentir essa raiva asquerosa que estou sentindo agora.
A não ser que você arrombe aquela porta agora e me diga que tudo isso não passou de um pesadelo de criança e, ainda ofegante, me beije como só você, seu filho da puta, sabe fazer.

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